À medida que se intensificam os rumores sobre o novo proprietário do WRC Promoter, a DirtFish perguntou ao promotor de um dos novos campeonatos mais populares do rali – o Rally Series – como ele moldaria o futuro do WRC. Aqui, André Lavadinho partilha as suas reflexões:
“O problema não é o rali. O problema é a forma como apresentamos o rali ao mundo. O mesmo ADN. Uma experiência melhor para o mundo em que vivemos hoje. Não acredito que o WRC precise de uma revolução. Já tem um dos maiores produtos desportivos do planeta. O desafio, a imprevisibilidade, as diferentes superfícies, as condições instáveis e o nível de habilidade exigido tornam o rali único. Os pilotos são atletas extraordinários, capazes de coisas que muito pouca gente no mundo consegue fazer. O que acredito, sim, é que o desporto tem de evoluir. Não através da alteração do seu ADN competitivo, mas sim melhorando a forma como as pessoas o vivem.”
Proteger o que torna o rali especial
“A primeira coisa que eu faria seria proteger a essência do desporto. O rali é especial porque é imprevisível. Os pilotos competem em estradas reais. As condições mudam constantemente. Os erros têm consequências. Nada é garantido. Esse ADN competitivo nunca deve ser sacrificado em prol do espetáculo. Nunca deve ser simplificado ou transformado artificialmente. A competição em si não é o problema.”
“A oportunidade está em fazer com que mais pessoas o compreendam, o acompanhem e se apaixonem por ele. Durante décadas, os ralis foram desenhados principalmente para pessoas que já adoravam ralis. Hoje, competimos pela atenção num mundo completamente diferente. Estamos a competir com a Netflix, o YouTube, o TikTok, o gaming e inúmeras outras formas de entretenimento. A questão já não é: Como organizamos um rali? A questão é: Por que razão deve alguém escolher passar o seu fim de semana connosco? É aí que acredito que o WRC pode dar um grande passo em frente. Quando uma família chega a um evento, deve encontrar mais do que alguns minutos de carros a passar por uma classificativa. Deve encontrar uma experiência. Deve encontrar entretenimento, atividades, comida, competições, sessões com os pilotos, ativações de patrocinadores e motivos para se manter envolvida ao longo do dia. O futuro não passa por substituir as classificativas tradicionais. Passa por construir uma experiência completa em redor delas.”
Repensar as fan zones e as zonas de público
“Esta é uma área onde acredito que o rali ainda tem um potencial significativo por explorar. Muitos ralis têm arenas de espetáculo ou zonas de público dedicadas, mas, com demasiada frequência, a ação em si dura apenas alguns momentos, seguidos por longos períodos de inatividade. Isso cria desafios não apenas para os adeptos, mas também para as marcas e patrocinadores.”
“Uma empresa não consegue justificar uma grande ativação em torno de uma única passagem de carros. Os patrocinadores precisam de oportunidades para interagir com os visitantes ao longo do dia, mas se não houver a ação dos carros ali, o espaço ficará vazio durante o dia. Os adeptos precisam de motivos para ficar mais tempo e tornarem-se parte da experiência do evento. Os eventos de futuro com maior sucesso serão aqueles que criarem verdadeiros festivais de rali, onde a competição continua a ser a peça central, mas onde o entretenimento, a interação e a comunidade mantêm as pessoas envolvidas da manhã à noite. Esta é uma das razões pelas quais, com o Rally Series, optámos por construir um modelo diferente como este, como um puzzle de ideias. O rali em si permanece exatamente o mesmo. O ADN competitivo está intacto. Os pilotos continuam a competir contra o cronómetro. O desafio permanece idêntico. O que mudou foi a experiência em redor do rali.”
“Criámos um conceito de arena central onde os adeptos podem passar um dia inteiro, ou até mesmo um fim de semana completo, a desfrutar de atividades, ativações de patrocinadores, entretenimento, competições, zonas de restauração e uma interação direta com o desporto. O resultado é simples: os adeptos ficam mais tempo e as marcas ficam mais tempo.”
“Em vez de atrair as pessoas para uma única passagem de uma classificativa, o evento torna-se um destino onde os espectadores se mantêm envolvidos ao longo de todo o fim de semana. Nem todos os eventos do WRC têm atualmente a infraestrutura ou o espaço para adotar este tipo de conceito de forma imediata, mas acredito firmemente que poderia ser introduzido progressivamente. Um conceito padronizado de fan zone do WRC, adaptado a cada rali mas partilhando a mesma identidade e objetivos, poderia também introduzir uma área dedicada à ativação de marcas, um layout do parque de assistência mais estruturado e visualmente consistente, e unidades de hospitalidade e assistência das equipas padronizadas, criando um ambiente mais limpo e imersivo, inspirado nos padrões de apresentação vistos noutros campeonatos, ao mesmo tempo que se recolocam os veículos de apoio e a logística operacional fora da zona virada para o público. O objetivo não é mudar o rali. O objetivo é criar mais razões para que as pessoas o vivam.”
A maior vantagem do rali
“O rali já possui algo que muitos desportos adorariam ter. Proximidade.”
“Muito poucos desportos permitem que os adeptos se aproximem tanto dos concorrentes, das máquinas e da ação. Deveríamos estar a usar essa vantagem de forma muito mais eficaz. As pessoas não se apaixonam por desportos apenas por causa das estatísticas. Apaixonam-se pelas pessoas. Seguem personalidades. Conectam-se com histórias.”
“O WRC tem pilotos incríveis, mas muitos adeptos apenas os conhecem através dos tempos das classificativas e das classificações do campeonato. Precisamos de contar mais histórias. Os sacrifícios. Os desafios. As personalidades. As jornadas que os levaram ao topo. O desporto moderno é construído com base na ligação emocional, e o rali tem todos os ingredientes necessários para a criar.”
A comunicação faz parte do produto
“Hoje em dia, a comunicação já não está separada do desporto. Faz parte do desporto. Os adeptos esperam acompanhar os eventos em tempo real. Esperam histórias antes, durante e após os ralis.”
“Esperam conteúdos que os ajudem a compreender o que estão a ver e por que razão isso importa. Os campeonatos precisam de equipas dedicadas, capazes de criar essa ligação todos os dias, e não apenas durante os eventos. O mesmo se aplica à cobertura em direto. Acredito firmemente nas transmissões em direto, mas o desafio já não é simplesmente produzir mais horas de cobertura. O desafio é captar a atenção, construir narrativas e criar momentos memoráveis. Talvez haja espaço para ambos os modelos. A cobertura tradicional de formato longo para engenheiros, equipas, profissionais da comunicação social e adeptos ferrenhos que querem acompanhar cada classificativa, cada tempo intermédio e cada decisão de estratégia. E, a par desta, um produto mais curto e dinâmico, desenhado para o público em geral. Um formato que pareça mais acessível. Mais emocional. Mais focado nas histórias. Quase um reality show do desporto motorizado para as pessoas que não podem estar presentes no evento. Menos cobertura puramente técnica. Conteúdos mais autênticos e informais. Mais acesso aos bastidores. Mais personalidades. Mais histórias. Mais razões para que alguém que nunca assistiu a um rali antes se comece a interessar pelo desporto. Ambos os públicos importam. Ambos devem ser servidos.”
Olhar para o futuro
“Se tivesse de resumir a minha visão para o futuro do WRC numa única frase, seria esta: O mesmo ADN competitivo; uma experiência muito melhor. Porque a competição já é extraordinária. O desafio agora é fazer com que mais pessoas se apaixonem por ela. Não acredito que o rali precise de se transformar em algo diferente. Acredito que precisa de se tornar mais fácil de viver, mais fácil de compreender e mais fácil de partilhar. O desporto já tem tudo o que precisa: Grandes pilotos. Grandes carros. Grandes eventos. Grandes histórias. Agora, a oportunidade reside em ligar essas histórias a mais pessoas do que nunca. Porque o crescimento futuro do rali dependerá tanto da narração de histórias, do envolvimento dos adeptos e da acessibilidade, como dos próprios carros.”